terça-feira, 19 de abril de 2011

No olho do furacão

Assumi a direção do C.E.K.P. por indicação e por aceitação dos colegas professores e dos funcionários desta escola. Não me foi imposto, foi-me oferecido. Hoje, ao término da 1ª unidade letiva, faço um balanço da real situação do Kleber Pacheco. Encontrei uma escola com costumes arraigados e difíceis de serem mudados. Compreendo agora a luta do meu antecessor, professor Carlos José.
O Kleber Pacheco parece existir numa realidade paralela. São quase 800 alunos (nosso quantitativo aumentou muito esse ano) e cerca de 38 funcionários (porteiros, servente, pessoal de limpeza, cozinheiras, professores, secretárias) a serem geridos todos os dias. Difícil? Não seria se cada um assumisse suas responsabilidades e tratasse de trabalhar com afinco, mas o que vejo são pessoas (que a carapuça caiba em quem de direito) meio perdidas em suas funções. Tenho ótimos professores, cumpridores do seu dever, irrepreensíveis. Tenho uma professora que não aparece na escola há séculos (caso entregue à DIREC 32 para que haja uma efetiva resolução, até lá, eu profª Ivete Ana e profª Joseane estamos assumindo temporariamente suas aulas, é mole?). Tenho professores e funcionários cujos filhos ficam doentes quase toda semana (e lá se vão as faltas pra DIREC, se tiverem atestados, oba, dinheiro integral no fim do mês. Se não... sinto muito).
Tenho funcionários que estão aqui há mais tempo que eu e que no entanto preenchem errada a documentação mais básica e lá se vai mais trabalho pra refazer o que já houvera sido feito. Tenho alunos conscientes de seus deveres e direitos, tenho outros que nem sabe quais são ou mesmo que existiam. Assim como tenho professores que faltam e que pensam que estão fazendo um favor em dar aula (o que há de acabar, com muito trabalho e fé em Deus), tenho alunos que enchem a escola todos os dias e não entram em sala de aula ou ficam passeando entre uma sala de aula e outra até o momento de ir para casa. Quando era uma feliz professora não me dava conta da dimensão desse problema, hoje sei tudo o que ele acarreta para a escola. Tenho pais e mães que reclamam de tudo mas que só apareceram na escola ao saber que os faltosos não seriam admitidos na sala de avaliação ou que só aparecem ao final do ano letivo quando o filho "fracassa". "Mas meu filho vem à escola todos os dias", foi o que mais ouvi nas justificativas das faltas. "Vem, mas entra na sala de aula? Tem certeza?", foi a pergunta que mais fiz. Será que alem de gerir a escola preciso pajear estudantes que deveriam saber suas obrigações? Há uma comunidade inteira pra criticar, há meia dúzia de pais para ajudar (OBRIGADA, DEUS, POR ESSA MEIA DÚZIA).
Meus estudantes trazem celulares para a escola e querem escutar música no mais alto volume, enquanto em alguma parte do Planeta Pacheco acontece uma aula da qual ele deveria fazer parte. Meus estudantes tem o hábito de riscar paredes, destruir banheiros, bebedouros (meu prejuízo é de $2.550,00 - referentes a 03 bebedouros novos que foram quebrados pelos alunos e cadê verba pra reparar? ), meus estudantes arrancam as tomadas recém colocadas em sala de aula, quebram carteiras, rasgam livros. E o que há de novo? Essa é uma realidade latente em milhares de escola, mas no Pacheco ela toma proporções que fogem ao comum. E vamos reclamar porque o ventilador está muito alto e não refresca... se eu não tivesse que refazer várias vezes o mesmo serviço, porque imprescindível, eu bem poderia rebaixá-los. Que triste! Meus estudantes atiram o lanche pela janela para atingir os colegas em sala de aula e ainda reclamam porque recebem, iogurte, sopa, feijão tropeiro, suco com biscoito, macarrão com salsicha ou mingau, enquanto muitos passam fome e enquanto a escola recebe cerca de $ 0,30 para manter diariamente cada estudante. Dúvidas quanto à qualidade da merenda? Passe na escola, sem aviso, qualquer dia e experimente você mesmo. Não esqueça de que estamos sem o repasse da verba destinada à merenda desde dezembro. Pois é, aprendi a fazer malabarismos. Se bem que com o salário de professor isso não é grande novidade. E viva o professor que tem a cara de pau de ir pra sala de aula dizer que a escola recebe $5,00 por aluno para o lanche. Espero que ele seja um profeta e que essa realidade não demore a chegar. Sobre as drogas na escola eu nem vou falar no momento, pra não correr o risco de amargar o seu dia.
 Enfim, Pacheco, há muito que mudar, mas essa mudança não está em minhas mãos. Ela depende da comunidade, dos alunos, dos funcionários, dos professores. Esperança nós temos sempre, trabalho também (aliás, aprendi que domingo também é dia de vir para São Roque trabalhar se eu quiser que as coisas efetivamente funcionem. Ane Medina também entra nessa.). Vamos em frente, rumo à 2ª unidade, na certeza de que muita coisa já mudou e muitas outras mudarão. É um trabalho de formiguinha, mas precisa ser feito. E há que ter fé, senão... Quem sabe em breve, quando eu voltar a ser uma feliz professora em minha sala de aula, eu não possa ter a bênção de ver uma escola diferente, onde alunos e professores não representam um papel, mas atuam na realidade? Vamos em frente!

Um grande abraço,

Alessandra

3 comentários:

  1. Gestora e Amiga, acompanho sua luta e vejo o quanto é difícil, mas acredito na sua competência, pois a vontade que tudo de certo você tem e com fé em Deus chegaremos lá, pode contar comigo sempre, juntas estaremos para que o Colégio Estadual Kleber Pacheco um dia seja um referencial de ensino. Abração ANE MEDINA

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  2. Eu estou impressionado com sua firmeza e vontade de vencer. Espero, sinceramente, que ela seja real.

    Aceite meu tom crítico, como mais um barreira a ser quebrada, pois é somente assim que marcamos na vida de centenas de pessoas, milhares talvez.

    Acredito que o verdadeiro objetivo de cada ser humano é fazer a diferença, respeitando os diferentes. Ninguém é igual a ninguém.

    E é por esse motivo, que republiquei no meu Blog a sua postagem. Sou professor e atualmente comunicador, sei das nossas lutas e vitórias, assim como das nossas decepções. Supere-as e marcarás. Você já é uma vencedora!

    Estou aqui para o que der e vier.

    Zevaldo Sousa - o Blogueiro
    www.zevaldoemaragogipe.com

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  3. Realmente as coisas são difíceis, afirmo que ñ sou uma das "melhores alunas do Kleber Pacheco" mas reconheço a mudança em qua asenhora fez nesta escola, a sua força de vontade me motiva mais e mais a me dedicar aos estudos, pois sei que este privilégio ñ é para todos. portanto sei que as dificuldades existem mas lembre-se de que alunas como eu precisam de alguem competente como você. Não desista precisamos de ti.

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